(Para uma reflexão sobre as ´tradições´ de cinza na ilha de Santiago e as orientações da Igreja)         

Padre Nuno, pároco de S. Miguel Arcanjo

   É do comum conhecimento que a quarta feira de cinzas é o dia que a Igreja, em todo o mundo, assinala o começo da quaresma, quarenta dias de preparação para a festa da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. É também sabido que, no dia de quarta feira de cinzas, a Igreja assinala esse início com uma celebração de imposição de cinzas, sendo um dia de jejum e abstinência.

            Porque é que, na ilha de Santiago, esse dia, desde há muito, e cada vez mais, tornou-se um dia de grande festa, de grandes comidas e bebidas, indo contra o espírito de jejum e abstinência proclamado nesse dia para toda a Igreja?         

            A este respeito deixo aqui um pequeno excerto de um artigo publicado em 2009 no  jornal “Expresso das Ilhas”:

“De facto espanta aos habitantes das outras ilhas a quantidade de géneros alimentícios que se ingere em Santiago, justamente no dia em que se devia jejuar. Neste dia não deve faltar em nenhuma mesa o peixe seco, cúscús com mel e outros produtos da terra. Como se explica a perversão, na ilha de Santiago, do sentido religioso desta festa que marca o início da Quaresma, um período de jejum de 40 dias que serve de preparação para a solenidade da Páscoa, a festa máxima dos cristãos.

Para o investigador da cultura cabo-verdiana, José Maria Semedo, a explicação deste fenómeno, que se situa unicamente na ilha de Santiago, tem origem na Idade Média. Durante o período de penitência que ia das Cinzas até à Páscoa, só se comia coisas pobres e numa única refeição diária. Depois formou-se a tradição em fazer no dia de Cinzas penitência em não comer coisas caras e o excedente financeiro distribuído aos pobres. “Daí que na nossa sociedade escravocrata, os proprietários não comiam carne nesse dia e davam aos escravos repasto abundante. Sem carne é certo, mas em grande quantidade peixe seco, verduras, etc”, explica José Maria Semedo.

Aqui em Cabo Verde, sobretudo na ilha de Santiago, numa tradição que remonta à época escravocrata, Cinzas assumiu-se como um dia em que os proprietários dos escravos evitavam de comer em plenitude e ofereciam aos seus escravos o máximo de comida possível. Mas, à semelhança das outras ilhas onde não se estabeleceu a tradição do pantagruélico repasto, a regra era a mesma: uma única refeição diária. O excesso, conforme José Maria Semedo é para compensar em quantidade a penitência. “Isso justifica um pouco o volume, porque no dia de Cinzas, também na ilha de Santiago, só se come uma vez. Mesmo para os que tomam a festa como o dia de encher o bandulho, só comem, nesse dia, entre as duas e as três da tarde e acabou. Só irão comer no dia seguinte”. Quem comer duas ou três refeições diárias, está a desvirtuar completamente a tradição, explica o investigador”.

Algumas Autarquias aproveitam ´cinzas´para promover festivais de gastronomia? Má opção!

Depois desta possível explicação, várias questões se levantam: Será que tudo isto não colide com o sentido penitencial proclamado pela Igreja para todos os quatro cantos do mundo? Porque é que na ilha de Santiago, os cristãos, neste dia, se auto-dispensam de jejuar e de fazer abstinência? Porque é que em algumas partes da ilha de Santiago, as Autarquias estão a aproveitar esta ocasião para promover autênticos festivais de gastronomia e afins? Qual deve ser a posição dos nossos cristãos e da nossa  Igreja? Será que o nosso Pastor não deveria ter aqui uma palavra de alerta e de chamada de atenção sobre este assunto? Como ajudar os cristãos a serem fiéis, não às tradições ditas “culturais”, mas ao verdadeiro espírito desse dia?

Tudo perguntas para nos ajudar a reflectir e a pensar no verdadeiro espírito da quarta feira de cinzas, início de tão importante tempo para a Igreja, a quaresma.

Deixo aqui algumas pistas para podermos viver o tempo quaresmal da melhor forma, a começar logo no seu primeiro dia: quarta feira de cinzas.

 1º – Fazer a nossa Oração com fé e atenção, evitando as distracções. Rezar com Confiança e com sentido de dependência de Deus.

 2º – Oferecer a Deus em sacrifício algum pequeno gosto na Alimentação ou na Bebida, de modo a não prejudicar as forças físicas de que precisamos para trabalhar a fim de ajudar os nossos irmãos mais pobres e necessitados.

 3º – O sacrifício que podemos e devemos fazer no vestuário. Vestir com decência e modéstia, sem nos deixarmos escravizar pelo último grito da moda.

 4º – Suportar com serenidade as contrariedades que surgem no nosso caminho: palavras desagradáveis, sorrisos irónicos e trocistas, um desprezo ou uma falta de atenção, divisão e incompreensão da família ou vizinhos…

 5º – Suportar de boa vontade a companhia daqueles que nos são antipáticos e nos desgostam, daqueles que nos contradizem, molestam e chateiam com perguntas indiscretas ou talvez mal-intencionadas.

 6º – Saber perdoar do fundo do coração aos nossos inimigos e mostrar um verdadeiro arrependimento que leva à conversão de vida.

 7º – Deixar aqueles Vícios que nos prendem às coisas do mundo e nos impedem de caminhar livres e responsáveis.

 8º – Fazer uma verdadeira Renúncia Quaresmal, privando-me de algo, a fim de estar mais solidário com os Pobres e irmãos necessitados.

 9º – Fazer uma boa Confissão pessoal onde faça a análise da minha vida cristã em todos os seus aspectos.

 10º – Tomar consciência que sou dependente de Deus e da Sua Graça e por isso, a necessidade de me Reconciliar mais vezes ao longo de toda a minha Vida.

                                                                        Pe. Nuno Miguel da Silva Rodrigues, espiritano.

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