No final da tarde de sábado, 10, pouco antes de participar  na vigília de oração preparada pela comunidade de Ponta d’ Água, onde viveu toda a sua infância,  o António Leal  conversou com o site da Diocese, completando assim a apresentação dos quatro seminaristas que vão receber a ordenação ao ministério diaconal no próximo domingo, 18 de Dezembro. A nossa conversa aconteceu na capela, o lugar onde o chamamento de Deus aconteceu com toda a sua força. Foi nesse mesmo lugar de culto, que um dia, durante a celebração da festa da santa padroeira , que António decidiu entrar para o seminário. Na entrevista, António Leal fala um pouco da sua motivação sacerdotal, da experiência e perspectivas como estagiário na ilha do Fogo e diz estar “disponível” para servir a Deus e a Igreja. Leia a entrevista com António Leal.

Quando cá chegamos pude perceber que tem uma relação especial com os jovens daqui de Ponta d’Água…

Existe uma relação, sobretudo, de fé entre nós. São jovens que me viram crescer, que me viram dar passos concretos no Seminário e que me acompanharam na minha caminhada. Alguns deles foram meus colegas de escola e também do coro da Igreja onde cantávamos juntos na missa. Tenho uma esperança especial nestes jovens, penso que essa semente lançada por Deus através da Igreja vai dar frutos. No Domingo 18 de Dezembro, se Deus quiser, serei ordenado diácono, muitos jovens daqui poderão agraciar-se disso, também, estando atento para poderem perceber que projecto Deus tem para eles e, quiçá, seja o caminho do sacerdócio, também.

Como disse, no dia 18 vai ser ordenado diácono, faltam poucos dias, como está em termos de preparação para este dia?

Nunca se está preparado. Eu em particular, estou disponível para servir a Igreja, como ela entender e, sobretudo, para responder a Deus de uma forma mais madura, com convicção e firmeza neste “sim”, para o serviço do povo de Deus. Aqui não há sentimentos, há a entrega, o sentimento não é melhor palavra para classificar aquilo que vai na minha alma. O que há, neste momento, é a entrega do meu ser todo, onde se inclui o sentimento, o corpo e o espírito que estão entregues a Deus e ao serviço da Igreja.

Depois da Ordenação o que se pode espera do diácono António?

Aquilo que se pode esperar também agora. Que eu seja uma pessoa com uma consciência clara daquilo que é servir, porque ser diácono, no fundo, não é outra coisa senão servir. A diaconia, a palavra grega, significa serviço. Portanto é perceber a dimensão do serviço e incutir isso no coração das pessoas a quem sou enviado.

Quais são as suas motivações em ser padre?

Posso dizer que houve um crescendo de motivações. Houve uma motivação inicial que começou na infância. Desde criança sentia um apelo no sentido de seguir Jesus mais de perto, havia aquele um fascínio pelo ser padre, que pouco a pouco foi tendo uma configuração mais sólida e com a caminhada no Seminário, sobretudo, fui descobrindo realmente o que é ser discípulo de Jesus. A pouco e pouco, no Seminário Maior, fui me apercebendo desta responsabilidade de vir a ser a voz da Igreja, esta responsabilidade, sobretudo, de dar uma resposta firme e não de modo superficial. No Seminário Maior aprendi muito isso, a assumir a vocação e, agora é com muita alegria que avanço para o diaconado, para estar cada vez mais confirmado na minha vida, esta certeza e assunção desta nova responsabilidade que a Igreja me pede. No fundo, o que está no centro é Deus e a Igreja. Eu sou aquele que está em serviço, sou o instrumento de Deus e tenho a plena consciência disso, estou nas mãos de Deus e, é através deles que eu caminho.

Sei que vem de uma família católica muito praticante, tem um irmão sacerdote, isso influenciou na sua decisão de ser padre?

Esta é uma questão que nunca pude perceber ao certo. É claro que ter um irmão padre, que avançou por esta caminhada antes de mim, acaba por ter uma repercussão na minha vida. O primeiro contacto com o seminário, com a realidade de ser padre aconteceu em casa, dentro do contexto familiar, onde o meu irmão, de certa forma, empreendeu este caminho antes de mim. Posso dizer, que no fundo, houve um pequeno alerta através da atitude dele. Mas, sublinho que entrei para o Seminário com convicção firme, com plena certeza daquilo que eu queria e, sobretudo, não fui arrastado, senti o apelo e respondi assim como tantos outros que certamente, poderão sentir este chamamento. Recapitulando houve essas duas coisas, o primeiro contacto certamente terá sido com esta experiência de ter um irmão que escolheu este caminho. Um segundo aspecto é que eu sei porque entrei para o Seminário, a motivação real que me levou a ao seminário, fui com plena consciência, com toda a liberdade daquilo que eu queria, que é ir respondendo ao apelo de Deus, que no inicio é obscuro é não tem toda a clareza. Mas o seminário no fundo é para isso, perceber com solidez o que o senhor quer de nós.

Ao ser padre, qual é o grande objectivo?

O grande objectivo já está traçado pela Igreja, que é assumir aquilo que a Igreja é e os seus desafios. Não é um objectivo pessoal, não é um projecto meu mas, o ponto de partida é sempre Deus, que na sua iniciativa me chama, mas não me chama pelos meus lindos olhos, mas sim por causa deste povo a quem quero servir com toda a disponibilidade. Mas, nesta dinâmica de ir respondendo aos desafios da Igreja, considero que um dos grandes objectivos é chegar aos corações das pessoas com o evangelho. No fundo é este o instrumento que Deus nos coloca na mão. Na ordenação do diácono vamos receber o evangelho para anunciar. No rito da ordenação do diácono há esta celebre frase que eu considero muito substancial: “Cré o que lês, ensino o que crês e vive o que ensinas”. No fundo, o centro é o evangelho, penso que é refontalizar na palavra, a palavra que é a fonte, portanto, penso que regressar a fonte, a base, é o grande desafio da igreja hoje. As pessoas irem gostando, apostando e saboreando a palavra de Deus, porque é aí que está a salvação, é aí que encontram o sentido, a iluminação para as suas vidas e é aí que encontram Jesus Cristo vivo.

Como vê a missão do padre, hoje, em Cabo Verde?

O desafio de ser padre tem muito a ver com o contexto que a Igreja vive, as vicissitudes que a Igreja atravessa hoje, as alegrias que também perpassa esta missão. Penso que um grande desafio é a pastoral de proximidade, é o ponto de partida, penso que a partir desta atenção, deste zelo para com as pessoas concretas que nos aparecem, esta capacidade de tomar incitativa para ir ao encontro das ovelhas perdidas da “Casa de Israel” é o grande desafio. Outro é o desafio da presença, o saber estar, antes de evangelizarmos, temos que humanizar, temos que ter uma postura humana, próxima, capaz de chegar aos corações das pessoas e só assim haverá o caminho preparado para o evangelho.

Com a ordenação sacerdotal que acontecerá daqui a alguns meses, se Deus quiser, o que podemos esperar do padre António?

Desde que entrei para o Seminário a Igreja espera este assumir dos desafios da Igreja e continuará a esperar isso de cada pessoa que avança para este ministério. O Direito Canónico considera que só depois de seis meses é que se pode ser ordenado padre. Isso também vai depender muito da decisão do Bispo, das necessidades da Igreja, a decisão será dele. Quanto mais, estou disponível àquilo que vier. Eu gosto de me deixar surpreender, não quero estar a fazer planos, porque estes já estão traçados pela Igreja, é neles que vou agarrar com firmeza e vou assumi-los. Deixar-me surpreender fica mais bonito e tem mais graça, mais substância e conteúdo. As pessoas que hei-de encontrar na Igreja são as que Deus coloca para eu cuidar delas, não sou eu quem as escolhe, é Deus que me escolhe para estar a serviços destas pessoas, por isso é deixar-me surpreender por Deus.

Está a fazer o estágio em três paróquias da ilha do Fogo (Nossa Senhora da Ajuda, Nossa Senhora da Conceição e São Filipe). Como está a ser a experiência?

Está a ser uma experiência com um entusiasmo crescente, na medida em que cada vez que experimento esta grandeza e a sublimidade desta consciência de Igreja, consigo perceber que isto é sagrado, estou a tocar no terreno do sagrado e é preciso eu tirar as sandálias dos pés, como fez o Moisés. Por outro lado, isto constitui um apelo forte para seriedade para com este serviço que Deus me pede e ver que as pessoas estão no centro. Nas paróquias pude experimentar isso, pude confirmar que Deus é fiel. Apesar das minhas fragilidades e de tudo aquilo que vou a viver pude confirmar que Deus é fiel, é ele que me leva. Está ser uma experiência boa, a aprendizagem com o pároco, o padre José Eduardo tem sido muito próximo, tem me ajudado muito nessa dimensão de um ver claramente a pastoral, como actuar em prol do anúncio do Evangelho. Do mesmo modo, o padre Lourenço tem sido um irmão para mim, no sentido de ajudar-me a conhecer a realidade e a saber actuar com sensatez, com sabedoria do nosso Senhor.

Depois da ordenação vai continuar o estágio nas paróquias na ilha do Fogo. Quais são as expectativas daqui para frente?

A minha expectativa é ir vivendo com seriedade o ministério que Deus coloca na minha mão e que a Igreja também me pede. É exercer com calma, com claridade o serviço deste ministério diaconal. Convêm não ir com pressa, é ir sempre com essa dimensão da fidelidade ao sim. Esta é a minha expectativa e da parte da Igreja e das comunidades onde irei continuar o meu trabalho espero esse bom acolhimento de forma que em conjunto, nessa sinergia, nesse esforço comum pudermos cada vez mais viver o essencial que é Jesus Cristo e servi-lo da melhor forma que pudermos, dando o nosso máximo.

Estamos num país onde os jovens são a maioria e são muitas vezes, os jovens que deparam com os maiores problemas sociais, face a tudo isso, como vê a relação da juventude com a Igreja, com a vivencia da fé, e da vocação?

Em relação da juventude, o capital humano é uma das coisas fundamentais, porque é o ponto de partida é a base e o sustento para ver a experiencia sólida de fé e psicológica também, é esta capacidade de ter identidade. Muitos jovens de hoje é como que diluem-se no seio do grupo, não sabem realmente quem são. A perda da identidade é um dos aspectos que, a meu ver, está a assolar a nossa sociedade, penso que há este desafio de ter uma identidade sólida, sem se deixar influenciar e “alugar a cabeça” pelos outros. A pessoa tem que descobrir ser ela própria, saber no mundo de hoje, distinguir o que é de Deus e o que não é, ter a capacidade de discernir de separar e de ser Igreja de uma forma coerente e, não numa dicotomia, ou seja numa divisão em que num determinado momento apresento-me de uma maneira e depois num outro momento apresento-me de outra forma. Como que a pessoa está a intervalar o que é de Deus e o que é do mundo. No fundo, a meu ver, isso deve se a uma coisa só, é o cristão que cré em Deus e que está no mundo e que vive os valores cristãos do mundo, é saber ser inteiro. A inteireza é o grande desafio dos jovens, é na inteireza que os jovens são capazes de perceber que Deus os está a chamar. Quando os jovens estão esfrangalhados, estão dispersos interiormente não conseguem estar a atentos para perceber o que Deus os está a chamar.

A nova evangelização~é a grande aposta da Igreja. Como encara este desafio?

É um desafio urgente, senão mesmo essencial, hoje. Posso falar da Nova Evangelização ou da “reenvagelização”, porque em muitos casos o evangelho já foi anunciado mas, as pessoas estão adormecidas e precisam de acordar-se para a vida, para o encontro com Cristo. Eu vejo que o grande desafio da Nova Evangelização passa pelo testemunho de vida, pela humanidade. Isso quer dier que primeiro é preciso ser humano para conseguir criar o ambiente para levar o evangelho, esta é minha grande convicção. Podemos anunciar Jesus Cristo sem dizer o nome Dele, apenas com a nossa vida, confirma-se que Jesus Cristo vive e reina em nós. Também o anúncio acontece através da palavra, não podemos calar àquilo que acreditamos. Se uma pessoa cristã acredita na pessoa de Jesus Cristo não pode ficar com isso só para si. A Nova Evangelização é também, essa urgência que a pessoa sente dentro de si de levar Jesus Cristo aos outros, através da palavra, de obras, comportamentos e pela coerência de vida. Noutros casos é a “reenvagelização”, ou seja, voltar a acordar as pessoas.

DS

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